segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Conversando com Drummond de Hilton Görresen

Acabei de ter uma conversa com Carlos Drummond de Andrade. Não, não é isso. Não pense que sou algum médium, que se comunicou com o notável poeta e cronista numa sessão espírita. Deixe eu explicar.

Para mim, a crônica é uma conversa com o leitor. O cronista escolhe o assunto que lhe remexe na cachola naquele momento. É como uma conversa de bar, na qual se exorcizam fantasmas, se derramam as queixas, se dão conselhos ou simplesmente se joga conversa fora. Para Vinicius de Moraes, trata-se de uma “prosa fiada”. Para o leitor é um negócio vantajoso, pois não concordando ou achando o assunto monótono basta abandonar o jornal, fechar o livro ou, atualmente, desligar o “tablet”.

Por isso, quando desejo me banhar no lirismo do cotidiano, enxergando o mistério das pequenas coisas, toco a conversar com Drummond. Conversando com Tarso de Castro ou com Fernando Lobo é como me sentar numa mesa reservada pelo garçom amigo, repleta de uísque e cerveja, ouvindo casos e histórias de célebres boêmios. Quem sabe, na mesma mesa estejam ainda Tom e Vinicius, Baden Powel e Toquinho com o violão, e a noite se mude em festa da MPB. Com Stanislaw Ponte Preta ou com Veríssimo passo horas divertidas, ouvindo notícias do analista de Bagé ou do primo Altamirando, e algumas vezes buscando inspiração para essas mal traçadas.

Com quem poderia eu conversar sobre o movimento Bossa Nova ou sobre os épicos da Era de Ouro do cinema, senão com Ruy Castro? Ruy me reporta ainda as viagens que não fiz, viagens turístico-literárias, como excelente guia, que me disponibiliza o cabedal de seu vasto conhecimento. 

Arthur Azevedo, teatrólogo e cronista, me empurra para nossa Belle Epoque, cheia de abonados fazendeiros e seus filhos bacharéis, à cata das artistazinhas de teatro. Me vejo, notívago que não sou, à luz dos lampiões, bem arrumadinho, portando bengala e chapéu palheta. 

Revisitando as crônicas de um antigo companheiro de andanças, revejo velhos amigos de trabalho e de festas espalhados por este país. Época em que o trabalho não era simplesmente o cumprimento de inalcançáveis metas, a fim de aumentar o lucro da empresa.

É também pelas minhas crônicas que, algumas vezes, converso com amigos da juventude recordando fatos, pessoas, músicas e costumes de uma época descompromissada com o futuro. Converso com minhas lembranças, com pessoas antigas, daquelas que conservamos em retratos amarelecidos. E principalmente, no fundo, converso comigo mesmo.