sábado, 5 de janeiro de 2019

(continuação) Gregorão e a Chiquita de estimação de David Gonçalves

– Vote, nega véia! Vá procurar outro!
A mulher, já envelhecida pelos rigores do tempo, sorriu e balançou a bunda, erguendo o vestido surrado.
– Não dê bola a essas mulheres. São perigosas – ralhou um taxista, interessado no relato.
– Pois bem – disse Gregorão, arrepiando-se horrorizado, como se tivesse bebido vinagre –, só de me lembrar o que me aconteceu, já trabalhando aqui, nesta rodoviária, neste ponto, sinto o estômago revirar.
– Fale logo, rapaz!
– O caso se deu numa noite assim, morna, calorenta, justamente por essas horas da madrugada. Era eu o último da fila. Chegou o ônibus de São Paulo. Todos os táxis, naquela noite, tiveram serviço. Eu já estava desanimado. Dizia a mim mesmo: essa história de que os últimos serão os primeiros não está bem contada. O último bebe a água suja, não consegue sequer pegar a rapa do tacho. Mais uma noite de prejuízo, perdida. Assim estava eu amaldiçoando a vida, quando uma passageira surgiu, carregando mala pesada e também uma caixa pequena. Mulher muito bonita, de pele morena e olhos verdes.
– Mulher bonita assim a gente nem cobra. Faz a corrida de graça. Mulher feia é castigo.
– Eu vi a sorte mudar. Ajudei a mulher a colocar a mala no bagageiro. Abri a porta. Ela entrou e sentou-se no banco de trás.
Ninguém na rodoviária. Pensei comigo: “Esta corridinha e vou-me embora. Essa noite é bananeira que já deu cacho...” Saí com a passageira, que levava a caixa sobre o colo, como se carregasse algum cristal, tanto era o cuidado. Principiei a conversar...
– Com mulher bonita a gente conversa sem querer. O diabo cutuca a alma e o assunto sai destramelado – comentou um taxista negro, sorrindo, e, quando sorria, mostrava os dentes brancos.
– É o que fiz. Falei sobre o tempo. Há dias não chovia. Calorão que ninguém aguentava. Perguntei se ela conhecia a cidade. Viera algumas vezes. Confessou que achava a nossa cidade muito bonita, o povo bom, gente hospitaleira. Perguntei onde morava. Há dois anos residia fora do país. Acho que nos Estados Unidos. Falou o nome da cidade. Mas não me lembro. Um nome esquisito, coisa de gringo mesmo. Pra essas coisas, não tenho memória. Vivia louca pra voltar ao Brasil. “Esse ar ameno da madrugada, o perfume das flores em cada esquina, a sensação de ouvir a linguagem da infância – ah, tudo isso, me fascina!” – relatou, inchando as narinas. Eu estava entusiasmado. Que morena! Juro que nunca tinha feito corrida com uma mulher tão jovial. Fiquei empolgado. Por Deus! Ao mesmo tempo que dirigia, conversava e prestava atenção naquela voz musical. Os pneus corriam macios, as esquinas não existiam! Eu sonhava!
Tomou fôlego. Estava visivelmente emocionado. Sua respiração era intensa, exalava o cheiro forte do cigarro barato. Todos estavam atentos, não se ouvia nenhum rumor.
– Conversando alegremente, enquanto dirigia, ali perto do batalhão, cismei de olhar pra trás, só pra ver aqueles olhos verdes brilhando no escuro. Eis o que vejo: a cabeça de uma cobra, enorme, me espiando entre os dois bancos! Eu fiquei branco. Puxei o freio de mão, botei o pé no breque. O carro voou em cima da calçada, subindo o meio-fio. Abri a porta num jato. E caí estatelado no meio do asfalto. 
A moça dizia: “É a Chiquita! Ela não faz mal pra ninguém! Não se preocupe, veja!” Passava as mãos sobre a cabeça da cobra. Quando ela fazia isto, mais me assustava. “Ela é boa menina, veja!, não morde ninguém, vive dentro de casa. A Chiquita queria ver aonde estávamos. Ela gosta de espiar, é muito curiosa...” 
Me levantei. Comecei a gritar como louco, até os milicos do batalhão me escutaram: “Fora do meu carro! Fora! Não quero cobra alguma dentro do carro! Fora!” Ela continuava suplicando: “Mas ela não faz nada, é de estimação. Eu trouxe essa jiboia quando era filhote. Aonde eu vou, levo junto. A Chiquita é finíssima!” Eu berrava: “Não quero saber! No meu carro, não! Fora!” 
A mulher, então, vendo o meu estado, saiu do carro, sempre com a caixa na mão, como se carregasse um cristal. Eu descarreguei a bagagem do porta-malas. Entrei no carro, dei partida e sumi, sem olhar se as ruas eram contramão ou não. Lá ficou a mulher com a cobra de estimação, gritando: “Seu filho de uma puta! Deixar uma mulher no meio da noite!” Tapei os ouvidos pra não ouvir. Cheguei em casa branco. A mulher se assustou. Contei o acontecido. Ela me fez uma chá de erva cidreira. Mas não tinha jeito. Por onde olhava, via a cobra.
Gregorão estava perturbado, olhos assustados, nervoso.
– O que vocês fariam?
Os taxistas estavam quietos.
– A mulher carregava a caixa, toda furadinha, como se fosse cristal. Essa Chiquita de estimação! Fiquei perturbado. Um cachorro, um gato, um porquinho, vá lá! Mas uma jiboia! É demais. Logo comigo, que já fui mordido por cascavel... Cada passageiro, até hoje, que tiver uma caixinha nas mãos, eu faço abrir antes. Ah, se faço! Comigo, agora, é diferente. Se não quiser abrir, não faço a corrida. Chiquita de estimação!
Neste momento, chegara o ônibus de São Paulo. Gregorão nem quis ficar. Ligou o carro e foi embora. Perdera a graça. Via cobra por todo lado.